segunda-feira, 6 de março de 2017

APROPRIAÇÃO CULTURAL

Esse vem sendo um dos assuntos mais polêmicos ultimamente, muitos acusam, outros muitos se sentem no direito de usar e abusar de símbolos, mas no fundo a maioria não entende do que se trata, por isso nessa matéria da Capitolina vou tirar algumas dúvidas:
Usar turbantes e dreads são apropriações? Se a pessoa não é negra, mas a família/religião/cultura/costumes é, ainda é apropriação usar turbantes ou fazer dreads?
Usar turbantes ou dreads é apropriação cultural. No caso, o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele evidenciava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência. No caso do dread, ele é característico em indianos, africanos e outras culturas não-ocidentais e, quando reproduzido, as pessoas se apropriam de um item que faz parte da “beleza natural” de determinado povo, mas que também está ligado às tradições.
O caso é que ninguém é realmente proibido de nada, mas vivemos num mundo onde há séculos uma cultura é dominante e imposta, o modelo a ser seguido é o europeu, consequentemente, o padrão estético é o ocidental e branco. Quando se nota o interesse nos casos citados, esses símbolos sofrem um processo de embranquecimento, elitização e exclusão dos costumes. O turbante que sua empregada fazia não era interessante até aquela amarração sair numa revista. O pior lado disso tudo é que a exclusão vem quando a tradição se torna um bem de consumo caro e de acesso restrito, ou seja, vira “modinha”. É totalmente diferente ser branco – ou passar como branco – e usar um turbante/dread, e ser negro usando as mesmas coisas; os olhares são outros, exatamente porque quando usado pelo protagonista daquela tradição, o símbolo ganha outro significado, ele é político, de resistência e empoderamento.
Em relação a religiões de matrizes africanas: todas as pessoas podem participar com respeito e, inclusive, se for necessário o uso de turbantes, isso pode ser feito, até porque o respeito àquele espaço (terreiro) deve vir em primeiro lugar. No fim, o argumento “eu tenho um parente negro” é sempre usado quando apontamos racismo e apropriação. Como eu disse, todo mundo pode usar, mas vale o bom senso de perceber que está participando de um sistema que legitima o racismo. Se a pessoa se sentir pertencente à cultura por conta dos laços de parentesco, não tem por que não, mas é muito fácil se dizer negro quando lhe é conveniente.
Apropriação cultural não faz parte da globalização?
O sistema global hoje só existe e se sustenta porque fazemos parte de um mundo em que exclusão, segregação, racismo e elitismo são características mantidas e propagadas. Não se pode ver a apropriação de culturas marginalizadas com bons olhos, porque quem marginaliza é o mesmo que se apropria, é algo muito mais amplo que mera globalização, é um processo para manutenção das mazelas. Ao mesmo tempo em que se impõe o padrão de beleza branca-de-cabelos-lisos e se propaga a ideia de que o uso de turbante por negras é coisa de “macumbeira”, o símbolo vira tendência da noite para o dia. Mas tendência para quem? As capas de revistas com mulheres usando turbantes mostram a mesma musa idealizada de sempre; visualmente, já se exclui a protagonista. Isso não é globalização, é um processo onde agora a moda é negra, mas o negro não está na moda, porque ser negro continua sendo ruim. Agora, ele não “pode” mais ser o agente principal da sua própria cultura.
Como falar de apropriação cultural se cultura, apesar de ser própria de um povo, não é propriedade do mesmo? Se cultura é algo que abrange tantas questões, se tornando um “apanhado de hábitos”, como dizer (e fazer entender) que não é positivo incorporar uma cultura a outra – especialmente em um mundo globalizado?
A cultura é a marca de um povo, não vivemos sem cultura, e determinados povos mantém a sua mesmo que ela tenha sido intensamente perseguida, por isso a necessidade de reafirmar o protagonismo ganha peso. Sobre ser abrangente, e consequentemente de todos, as religiões de matrizes africanas existem há séculos e ainda são vistas de forma pejorativa, porém vem sendo crescente a ideia de que é “cult” ir na umbanda. Até anos atrás era coisa de “macumbeiros” (e continua sendo se você é negro), então quando isso virou hábito e tornou-se de todos?
O samba enquanto ritmo hoje é reverenciado e todos enchem a boca para dizer que é um marco nacional. Primeiro que ele é um ritmo negro, segundo que ele é intrinsicamente ligado com todas as músicas negras feitas para denunciar as mazelas sociais que o nosso povo sofria, e ainda sofre, as tristezas causadas, seja pela escravidão, a fome, a exclusão social ou a miséria. Quando ele surgiu não só foi visto como coisa de “malandro”, como perseguido e reprimido, inclusive pela polícia. E agora ele é de todos? Quando se tornou de todos? Ou melhor, quando ele virou interessante?
Certo e natural seria nenhuma cultura ser imposta e nenhuma outra perseguida, a ponto de ser preciso reafirmação.
Se eu fizer um feijão sem carne e chamar de feijoada vegetariana? É apropriação?
Não interpreto como apropriação, só me incomoda o nome. A feijoada nacional é a feita dos restos de carne e feijão pelos escravos, e compartilhada entre eles, então tirar a carne me soa “gourmetizar” esse prato, mesmo que eu entenda as questões por trás do ato de não comer carne.
Existe apropriação musical? Iggy Azzalea é um exemplo?
Para ambas as perguntas a resposta é sim, tanto Iggy, quanto Elvis, são casos de apropriação no campo musical. No Brasil é comum também, acontece geralmente com ritmos negros, como samba, rock, funk, rap, etc., que são tratados como ruins, coisa de “bandido”, são perseguidos, seja com repressão violenta, ou com as opiniões que demonizam, e por fim quando se percebe o potencial por trás destes, são “lançados” no mercado, contudo com cantores brancos. E esses são tidos como os “melhores” mesmo que o ritmo tenha uma outra origem e outros cantores que, além de entender mais sobre o assunto (isso é fato), trazem em suas letras questões mais importantes como aquelas que expõem a pobreza ou violência a que o nosso povo está sujeito, mas esses são ou esquecidos, ou tem suas músicas roubadas ou regravas pelos “queridos da mídia”. Isso aconteceu no rock com Elvis e está acontecendo novamente com Iggy no rap, e como sempre tudo é tratado de uma forma, como se errado fossem os negros que querem reconhecimento pelos seus feitos, no caso culturais. Para mim é a evidência que o racismo e apropriação de culturas não dominantes, consequentemente a de grupos que são vistos como “minorias”, estão interligados e se fortalecem.
Como devo lidar então com outras culturas não dominantes?
Com respeito. O que inclui só usar se o grupo de permite isso, afinal, num mundo onde pessoas que pertencem às minorias não possuem voz, se você quer ser justo, tem que escutar o que elas têm a dizer sobre o assunto, ou seja, se dizemos não a apropriação, é não. Mesmo que haja negros que não se incomodam, ainda será mantido o processo que citei, por isso há muitos que não aceitam e pedem para que essas ações sejam repensadas.

DAFFÉ

DIA 04 DE AGOSTO "DAFFÉ ACÚSTICO" MÚSICA AO VIVO NO BURITECO.  CENTRO HISTÓRICO,  REVIVER EM SÃO LUIS MARANHÃO