segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tiririca e os Inteligentes

Crônicas Classificadas: 7) Tiririca e os Inteligentes
Sou tomado por uma alegria danada quando vejo se consolidar no caótico mercado musical brasileiro algum ser pensante, que não tem medo de dar suas opiniões (e não se furta a fazê-lo). E a alegria é redobrada quando percebo nesses tais seres, além do talento poético-musical, uma saborosa e afiada prosa. Estou me referindo a Zeca Baleiro, claro. Já tive até ímpetos de enfiá-lo num texto do Ninguém me Conhece, mas achei que seria muita cara de pau, não bastassem Ceumar e Celso Viáfora, pra ficar entre os mais ou menos conhecidos destacados lá.


Contudo, encontrei uma digna maneira de incluí-lo. Baleiro lançou recentemente, em comemoração aos 13 anos de carreira discográfica, um pacote com dois CDs e um livro. Os CDs, por serem óbvia e usual ferramenta do compositor, não carecem de divulgação aqui, mas o livro, sim. Claro que os fãs já estão acostumados a suas eventuais crônicas, mas o ato de reuni-las num livro é por si só feito a se comemorar. Principalmente porque o homem das balas sabe o que escreve, e escreve não só em português impecável como deliciosamente. Devorei seu livro em questão de dias, como se tivesse em mãos um daqueles romances impossíveis de largar. E o que me deixou ainda mais contente foi notar que, tirantes uma ou duas questões, temos a mesma opinião sobre a maioria dos assuntos destacados em seu livro, que é delicioso até no nome: Bala na Agulha (Reflexões de Boteco, Pastéis de Memória e Outras Frituras).

Escolhi pra esta coluna um texto do Bala na Agulha que, se já era atual, agora ficou mais ainda: Tiririca e os Inteligentes. Sempre nutri um carinho todo especial pela figura desse singular artista, não só por ser também um cearense, mas, sobretudo, pela necessária graça, generosa e quase infantil, que compõe sua imagem. Nem vou entrar no âmbito político, pois o ódio disseminado nas eleições deste ano já extrapolou sua quota. Deixo com Baleiro a incumbência de pisar em tão minado solo, ainda que não pelo viés político, mas cultural, que também carrega seus ódios:

Quando o cantor-palhaço Tiririca surgiu na cena musical, fiquei encantado. Lembro de ter visto repetidas vezes o precário clipe da música Florentina e de ter gargalhado desbragadamente, enternecido como uma criança. Talvez porque aquilo me remetesse aos circos mambembes do interior, que tanto vi na infância, com feras magras, bailarinas adiposas e melancólicos anões, ou talvez simplesmente por conta da tal empatia (ou simpatia, quem sabe), algo inexplicável apenas pelas vias da razão. O encantamento foi tanto que tempos depois me vi em meio a uma discussão inflamada sobre música, numa roda de pessoas inteligentes, fazendo a defesa de Tiririca, que, graças ao sucesso fulminante e à superexposição na mídia, era o cristo da vez.
Corta!


Em outra situação, assisti perplexo a um embate entre adeptos de Chico Buarque e seguidores de Paulinho da Viola. As duas "facções" defendiam calorosamente suas opiniões, contrapondo as produções dos dois mestres, num fla-flu de tirar o fôlego. O compositor Caetano Veloso, ao narrar suas impressões sobre alguns de seus contemporâneos no livro Verdade Tropical, em dado momento põe lado a lado os mesmos Paulinho e Chico, comparando-os com um olhar razoavelmente ponderado, ainda que discutível: "[...] Embora menos profícuo e muito menos dotado, como poeta, do que Chico, Paulinho voltava-se para o samba tradicional [...]". Menos profícuo não resta dúvida que Paulinho é, e o fato de passar anos sem gravar discos atesta isso. Mas... com que escalas se medem os poetas?


Corta de novo!


Uma das qualidades humanas que mais admiro é o senso das proporções, a capacidade de discernimento, de colocar cada coisa no seu devido lugar (se é que há um!), sem ignorar os contextos e particularidades da coisa ou pessoa – quaisquer que sejam – em questão. Ora, ninguém em sã consciência poderia comparar Paulinho da Viola e Chico Buarque, muito menos tentar mensurar talentos. Primeiro porque ambos são artistas de estatura imensurável, cujas obras falam por si, e depois porque não poderia haver parâmetro para tal comparação. Há que se considerar que cada um tem origem, formação, vivência e projetos artísticos distintos, mesmo que convergentes sob algum viés analítico, e ainda que convivam próximos no grande balaio da canção brasileira.


Do mesmo modo, parece-me sandice (atenção, nada a ver com a cantora Sandy, por favor) comparar Tiririca a Tom Jobim (e penso ser patético explicar por que), como vi fazer um indivíduo bem-apessoado intelectualmente, mas desprovido do tal senso das proporções acima decantado, na noite dos imbróglios musicais narrados no primeiro parágrafo deste texto.


Sempre refuto toda e qualquer postura tacanha e reducionista (mesmo as minhas) quando o assunto é "cultura", um conceito tão vasto quanto abrangente. Um artista popular que traga à cena cançonetas de circo engraçadas e cheias de gags, com malícia e verve, é digno de minha admiração. Mesmo que, analisando sob olhar mais crítico – ou adestrado por um ideal pequeno-burguês da arte talvez –, seja desafinado, tosco e mal articulado. Se a esfera da cultura é larga o bastante para caber tanta coisa, que dizer então da cultura brasileira, polifônica desde a origem?


O preconceito e a intolerância também estão postos no grande pacote da cultura, e têm a ver com repertório, com a experiência de cada um e, sobretudo, com o gosto pessoal. Diz velho ditado popular que "gosto não se discute". Pois gosto se discute, sim. Certo é também que discussões acerca de gostos não resolvem nada, ainda que possam fazer refletir. Generalizando ao máximo (e aproveitando pra fazer um pequeno mea-culpa), eu diria que todos, sem exceção, mesmo os mais "arejados", revelarão, em algum momento, alguma grande rejeição ou intolerância a uma manifestação artística, por mais reconhecidamente valiosa ou genuína que seja. Lembro-me de, certa vez, no auge do "pagode mauricinho" que infestava as nossas rádios e tvs, terem me perguntado numa entrevista com qual tipo de música eu menos me identificava. Respondi o óbvio: "Não gosto de pagode".


Minha resposta, apesar de sincera, era um clichê movido pela necessidade de soar inteligente, de parecer crítico e, em alguma medida, refinado. Ora, desde o tempo das marchinhas carnavalescas (guardadas as proporções, claro!) que canções frívolas, de letras infantis e/ou maliciosas e com refrãos grudentos fazem a delícia do povo brasileiro. As canções pop que hoje varrem as rádios do país de norte a sul, salvo poucas exceções, são, como o pagode, popularescas e ruins, mas têm um álibi no fato de terem porta-vozes brancos, urbanos e descolados ("bacanas", enfim). Seria verdadeiro dizer que alguém que, como eu, ouviu Noel Rosa, Ismael Silva e Martinho da Vila não se satisfaz em ouvir música ruim disfaçada de samba, como o pagode, por mais legítimo que seja. Críticas desse naipe não escondem, entretanto, uma certa arrogância e o nariz empinado de quem as faz do alto de sua inteligência, informação e presumida erudição

Tenho certeza de que o fiel leitor que ora se debruça sobre estas mal traçadas linhas está se perguntando: "Mas ele não estaria nessa categoria de branco, urbano e descolado, ou pelo menos aspirante a isso?"... E eu lhe respondo que não. Mas isso é assunto pra outro texto. Ah, falei tanto que quase me esqueço de dizer o principal: mais do que palhaço engraçado, acho Tiririca um gênio.


11/01/2006.


***


Por fim, aproveitando que citei o Ninguém me Conhece, deixo-lhes um presente extra, uma de minhas canções preferidas do Baleiro, a genial e pouco conhecida Turbinada, composta originalmente pro espetáculo Geraldas e Avencas e
relançada agora no CD Trilhas, que faz parte do pacote acima citado. Ouçam-na aqui.


TURBINADA
Zeca Baleiro


Ela fez dezessete pequenos reparos
No lóbulo da orelha
Extraiu as rugas, pés-de-galinha
Que a deixavam mais velha


Ela botou botox, sorriso inox
Que eu paguei em doze suaves prestações
250 ml de silicone em cada peito
Ficaram no jeito, dois belos melões


Tirou um par de indesejáveis costelas
Ficou com a cintura fina, cinturinha de pilão
Malha como louca, não marca touca
Ela tá sarada, turbinada, processada, envenenada,
Um mulherão


Ela ficou uma máquina
Ela ficou uma máquina
Mas tudo que eu queria, tudo que eu queria,
Tudo que eu queria mesmo era uma mulher


Ela fez lipo, agora faz tipo
Desfila com suas nádegas durinhas no calçadão
Ela fez peeling e só tem feeling
Pras coisas que podem deixá-la mais bela, magrela,
Cinderela sem paixão


Ela ficou uma máquina...